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Ai, se eu te pego ouvindo Michel Teló

Um dia desses tomei um susto andando com a Ana no carro pelo centro da cidade, se não me engano voltando da escola. Cruzamos com um carro daqueles que fazem jus à regra de que a qualidade do gosto musical do proprietário é inversamente proporcional à potência do som, tocando Michel Teló a todo volume. A Ana falou “olha pai, tá tocando aquela música que eu gosto!”. Meu coração se partiu em mil pedaços.

Cresci ouvindo Beatles, jazz e música erudita em casa, e minha adolescência foi regada a muito rock clássico, incluindo uma farta dose de rock progressivo. Estudei música durante toda essa fase da vida, embora nunca tenha me tornado um especialista em qualquer instrumento. Tenho gostosas recordações de ir ouvir música no “tio Ivan”, o amigo do pai que tinha aqueles discos do Genesis, e de matar aula no terceirão para ficar ouvindo música na Cacimba Discos Raros, que ficava pertinho do colégio. Cheguei a fazer um semestre da faculdade de Música, mas acabei desistindo para focar na Física (que depois também abandonei, mas aí é outra história). Ou seja, me tornei um chato musical – no bom sentido – que considera ouvir qualquer rádio FM tortura da pior espécie.

Mas lembro também que quando era criança eu me divertia com os discos de trilha de novela, curtia “Rádio Taxi” e ficava esperando passar RPM na rádio pra gravar em fita cassete – e, que droga, nunca conseguia pegar direitinho o começo da música. Essas experiências e descobertas por conta própria ajudam a gente a descobrir do que gostamos, e a criar um certo senso crítico – desse eu gosto, desse outro não. Música, como qualquer coisa na vida, é algo que se aprende aos poucos. Não adianta querer aprender cálculo diferencial antes de aprender a somar. Mas antes de aprender cálculo, você precisa aprender – e gostar – de matemática básica.

Desde que ficamos grávidos, sempre fiz questão de expor a Ana à boa música, desde a barriga. Sessões de fone de ouvido tocando de Chopin a Queen aconteciam quase que diariamente durante a gravidez. Após o nascimento, a hora de ir dormir era frequentemente acompanhada do “Baby Einstein” edição Bach ou Beethoven. Depois de todo esse investimento, saber que minha filha adora Michel Teló é uma excelente lição para entender que os filhos tem vontade própria…

Vejo alguns de meus amigos comentando que proíbem os filhos de ouvir Xuxa porque, segundo eles, é uma porcaria. Mas ao fazerem isso, não percebem que estão impedindo seus filhos de, primeiro, gostarem de música, e segundo, de criarem o seu próprio gosto musical. As músicas da Xuxa podem não ser um primor de qualidade musical, e pode ser que ouvir Toquinho ou Adriana Calcanhoto seja mais legal para seu filho, mas não adianta, a Xuxa faz(ia) músicas simples, com temas de interesse da criançada, letras fáceis de aprender e ainda por cima com aquelas coreografias que tornam a coisa toda mais divertida ainda. Cada coisa ao seu tempo, e se o seu filho gosta de Xuxa, que bom, é uma maneira de começar a gostar de música em geral. Aqui em casa nos divertimos igualmente assistindo ao “Pato” do Toquinho no Mundo da Criança e ao XSPB 3. Se você quer que seu filho aprenda a apreciar as mesmas coisas que você, então primeiro deixe ele gostar de música à sua maneira. Depois que isso acontecer (ou durante), exponha-o a aquilo que você gosta e quem sabe seu filho gostará também. Eduque seu filho, mostrando os instrumentos, tentando junto identificar cada instrumento nas músicas mais simples. Faça batucada com qualquer coisa, cante, toque violão junto, mesmo que você não saiba tocar. Enfim, faça da música uma diversão – e certamente não crie um ambiente onde “preciso cuidar pra não ouvir aquilo que meu pai não gosta se não ele vai ficar triste comigo”.

Por fim, temos que lembrar que nossos filhos são seres únicos e independentes, e se der na telha de virar dançarino de axé ou cantor de sertanejo universitário, assim será. Cabe a nós pais guiar pelo exemplo, mostrando aquilo que a gente acha mais legal.  E, se minha filha com dois anos e meio gosta de Michel Teló, azar, cabe a mim apresentar a ela ao que eu acho melhor e esperar que com o tempo ela espontaneamente passe a concordar comigo. Quem sabe lá pelos quatro anos ela já não deixou essas besteiras pra trás e chegou num Deep Purple?